Quadrado

ARTE TOTAL

Em meados do século 19, o audacioso compositor Richard Wagner já via o potencial da mistura de música com artes visuais. Resolveu então fazer o que chamou: Gesamtkunstwerk ou, em português, uma obra de arte total. A ideia era unir formas de arte para produzir uma entidade criativa.

Deve ter funcionado, pois foi ao assistir a ópera Lohengrin de Wagner, no Teatro Bolshoi , que um jovem professor de Direito se influenciou _imagens se misturaram em sua mente e ele desejou colocar em desenho a beleza que via na peça de Wagner. Não muito tempo depois, ele largaria o Direito para estudar Belas Artes em Munique, tornando-se o grande nome da arte abstrata, parte do grupo O Cavaleiro Azul (Der Blaue Reiter) e, futuramente ainda, professor da Bauhaus. Seu nome era Wassily Kandinsky.

No início do século 20, mais precisamente em 1911, a convite do pintor, compositor e amigo Mikhail Matyushin, Kazimir Malevich desenhou o figurino e o cenário da ópera “A Vitoria sobre o Sol”. Na execução de Malevich, tudo tinha uma pegada cubofuturista, mas ao final da apresentação havia uma peça da cenografia que diferia de todo o restante: um pano de fundo branco liso, com um único quadrado preto.

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Talvez naquele primeiro momento Malevich ainda não soubesse a importância daquele item, mas na segunda encenação da ópera, em 1915, ele já havia compreendido. Tanto que escreveu uma carta a Matsyushin em que dizia: “Eu ficaria muito agradecido se você mesmo pusesse no lugar meu desenho de cortina para o ato em que a grande vitória é conquistada (ele se referia ao pano do quadrado negro)… Esse desenho terá grande significado para a pintura; o que foi feito de maneira inconsciente está agora gerando frutos extraordinários”.

Naquele mesmo ano ele pintou o “Quadrado Negro” e os frutos a que ele se refere na carta se tornaram uma expressão artística da qual ele é considerado mestre precursor, o Suprematismo.

Nestes tempos já existiam os toca-discos, mas as capas eram um simples papel cartão com nome da banda e do álbum. Foi então que, em 1939, graças ao diretor de arte da Columbia Records, Alex Steinweiss, que teve a ideia de colorir e desenhar as capas, surgia uma nova plataforma de arte junto à música: as capas de discos.

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A escola pop foi a primeira a exibir nas capas a sua arte: Peter Blake desenhou para os Beatles a capa de “Sargent Pepper’s Lonely Heart Club Band”. A imagem, com a colagem de todas as celebridades atrás da banda, é uma obra do mundialmente conhecida, e sem dúvida foi um dos motivos, junto a outras contribuições na área de design e arte, que renderam a Peter Blake o título nobre de Sir, concedido pela Rainha da Inglaterra.

Blake também é o responsável por capas de nomes como The Who, Band Aid, Eric Clapton, dentre muitos outros.

Antes de se tornar o gênio do pop e ainda na década de 50, Andy Warhol já assinava capas de disco de jazz e blue como progressive piano, Thelonius Monk ….

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Depois de renomado, e com a Factory a todo vapor, sua relação com a música foi ainda mais estreita. Não só assinou capas dos Rolling Stones, Liza Minelli, Diana Ross e John Lennon, como dirigiu vídeos de bandas como a brit pop Curiosity Killed the Cat, The Cars. E produziu a banda Velvet Underground & Nico.

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A capa com a ilustração da banana é a capa mais conhecida de Warhol, e pode-se afirmar que está entre as mais reconhecidas no mundo.

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Houve também a polêmica capa de “Sticky Fingers” (1971), dos Rolling Stones. A obra de arte feita por Warhol, com a foto de Billy Name, mostra um corpo masculino, da cintura para baixo vestindo calça jeans apertada, e na calça havia um zíper que você podia baixar e ver o encarte _uma foto de uma cueca branca, escondendo um pênis supostamente ereto. Muitas fãs assumiram que a foto era da calça de Mick Jagger, o que Warhol sempre negou. Além disso os varejistas reclamaram que o zíper estragava o vinil, que foi então ligeiramente movido mais para o centro do álbum.

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O disco traz hits como “Wild Horses” e “Brown Sugar”, mas é possível dizer com certeza que a comunhão da música dos Stones com a obra de Warhol foi o segredo para ele ter sido um sucesso de vendas.

O grafiteiro e neo expressionista Jean Michel Basquiat foi integrante da banda Gray junto a Michael Holman, mas o primeiro release em vinil do grupo saiu depois da sua morte, em 1988. Ele também assina o disco dos rappers Rammellzee vs. K-Rob ‎- Beat Bop (1983), é uma verdadeira raridade encontrar este vinil.

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Muitos dos grandes nomes da arte assinaram capas: Keith Haring, Roy Lichtenstein, Barbara Krueger, Julian Opie, Nobuyoshi Araki, Robert Mapplethorpe, Nick Knight, Herb Ritts, e outros.

Screenshot 2014-08-03 16.32.05 Barbara Krueger

Screenshot 2014-08-03 16.18.45Keith Haring Screenshot 2014-08-03 16.32.41Roy Lichenstein Screenshot 2014-08-03 16.34.38Araki Screenshot 2014-08-03 16.33.47MarplethorpheScreenshot 2014-08-03 17.46.40Julian OpieScreenshot 2014-08-03 17.58.58 Herb Ritts

Temos também Linder Sterling, que nasceu em Liverpool, mas passou boa parte da sua vida em Manchester.

Artista, performer e instrumentista, tem grande envolvimento na cena punk e pós punk da Grã Bretanha. Amiga próxima de Morrissey, foi integrante da banda Ludus e fez o fanzine The Secret Public, junto a Jon Savage ,uma de suas obras mais conhecidas é a Orgasm Addict, capa de disco do Buzz Cocks.

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Da mesma forma que temos artistas famosos que assinaram capas de disco, temos designers gráficos e ilustradores que precisaram antes galgar uma carreira, mostrando seu trabalho através das capas, até conquistar seu reconhecimento como artistas,

É o caso do ilustrador Patrick Nagel. Claro, contribuíram em sua carreira também outros meios _por exemplo, as revistas_, mas são as capas da banda Duran Duran as obras mais reconhecidas de seu portfólio.

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E obviamente não poderíamos deixar de falar dele: Peter Saville, o grande nome da Factory e do The Haçienda, que ao lado de Tony Wilson fez inesquecíveis capas do New Order, Joy Division, Happy Mondays, a Certain Ratio, OMD, entre outros.

Das muitas histórias sobre ele, uma das mais icônicas é a capa do single “Blue Monday”, do New Order, de 1983.

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Baseada no disquete de 5 ¼, que era na época o meio tecnológico usado para gravar música eletrônica, Peter o compreendeu e o ilustrou com o mesmo significado da tecnologia que aquela faixa trazia. Não há nada escrito nela: toda a informação do disco, incluindo o título, é comunicada pela barra de cores no canto direito da capa, que pode ser decifrada na roda de cores que aparece posteriormente no verso do álbum “Power, Corruption and Lies”, lançado no mesmo ano.

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Devido aos cortes que haviam na capa original de “Blue Monday”, bem como a especificidade das cores, ela custou tão cara que o single foi vendido com perda de 10 centavos de libra por unidade.

Quando Tony Wilson, dono da Factory Records, da qual Saville também era co fundador, soube que a capa estava saindo tão cara, que disse: “Primeiro, é cara, mas é incrivelmente bela; segundo, nós não vamos vender nada”. Produziram o disco apenas em 12” e exatamente como Peter desenhou.

“Blue Monday” se tornaria o single de 12” mais vendido de todos os tempos.

Sobre os vinis , a boa nova é: apesar de ainda ocupar apenas 6% do mercado de música, a venda aumentou consideravelmente nos últimos dois anos. Cada vez mais, novos artistas lançam seu trabalho em vinil e discos antigos são relançados.

Ouvir um disco leva você a um ritual diferente de um shuffle de Ipod , o envolvimento com a música, com a ordem que o artista escolheu, com o projeto gráfico original _que muitas vezes é uma obra de arte.

“Steve Jobs foi um dos pioneiros da musica digital, mas quando ele ia para casa, ouvia discos de vinil” essa afirmação foi feita pelo cantor Neil Young.

O vinil conserva uma profundidade de som que é perdida nos formatos digitais.

Portanto, se você não tem uma vitrola e não coleciona vinis, você efetivamente deveria reconsiderar!

Por Julia Morelli

– matéria publicada no Manipresto #03



Os comentários estão desativados.

Quadrado

ARTE TOTAL

Em meados do século 19, o audacioso compositor Richard Wagner já via o potencial da mistura de música com artes visuais. Resolveu então fazer o que chamou: Gesamtkunstwerk ou, em português, uma obra de arte total. A ideia era unir formas de arte para produzir uma entidade criativa.

Deve ter funcionado, pois foi ao assistir a ópera Lohengrin de Wagner, no Teatro Bolshoi , que um jovem professor de Direito se influenciou _imagens se misturaram em sua mente e ele desejou colocar em desenho a beleza que via na peça de Wagner. Não muito tempo depois, ele largaria o Direito para estudar Belas Artes em Munique, tornando-se o grande nome da arte abstrata, parte do grupo O Cavaleiro Azul (Der Blaue Reiter) e, futuramente ainda, professor da Bauhaus. Seu nome era Wassily Kandinsky.

No início do século 20, mais precisamente em 1911, a convite do pintor, compositor e amigo Mikhail Matyushin, Kazimir Malevich desenhou o figurino e o cenário da ópera “A Vitoria sobre o Sol”. Na execução de Malevich, tudo tinha uma pegada cubofuturista, mas ao final da apresentação havia uma peça da cenografia que diferia de todo o restante: um pano de fundo branco liso, com um único quadrado preto.

Screenshot 2014-08-03 17.40.01

Talvez naquele primeiro momento Malevich ainda não soubesse a importância daquele item, mas na segunda encenação da ópera, em 1915, ele já havia compreendido. Tanto que escreveu uma carta a Matsyushin em que dizia: “Eu ficaria muito agradecido se você mesmo pusesse no lugar meu desenho de cortina para o ato em que a grande vitória é conquistada (ele se referia ao pano do quadrado negro)… Esse desenho terá grande significado para a pintura; o que foi feito de maneira inconsciente está agora gerando frutos extraordinários”.

Naquele mesmo ano ele pintou o “Quadrado Negro” e os frutos a que ele se refere na carta se tornaram uma expressão artística da qual ele é considerado mestre precursor, o Suprematismo.

Nestes tempos já existiam os toca-discos, mas as capas eram um simples papel cartão com nome da banda e do álbum. Foi então que, em 1939, graças ao diretor de arte da Columbia Records, Alex Steinweiss, que teve a ideia de colorir e desenhar as capas, surgia uma nova plataforma de arte junto à música: as capas de discos.

Screenshot 2014-08-03 15.46.39

A escola pop foi a primeira a exibir nas capas a sua arte: Peter Blake desenhou para os Beatles a capa de “Sargent Pepper’s Lonely Heart Club Band”. A imagem, com a colagem de todas as celebridades atrás da banda, é uma obra do mundialmente conhecida, e sem dúvida foi um dos motivos, junto a outras contribuições na área de design e arte, que renderam a Peter Blake o título nobre de Sir, concedido pela Rainha da Inglaterra.

Blake também é o responsável por capas de nomes como The Who, Band Aid, Eric Clapton, dentre muitos outros.

Antes de se tornar o gênio do pop e ainda na década de 50, Andy Warhol já assinava capas de disco de jazz e blue como progressive piano, Thelonius Monk ….

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Depois de renomado, e com a Factory a todo vapor, sua relação com a música foi ainda mais estreita. Não só assinou capas dos Rolling Stones, Liza Minelli, Diana Ross e John Lennon, como dirigiu vídeos de bandas como a brit pop Curiosity Killed the Cat, The Cars. E produziu a banda Velvet Underground & Nico.

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A capa com a ilustração da banana é a capa mais conhecida de Warhol, e pode-se afirmar que está entre as mais reconhecidas no mundo.

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Houve também a polêmica capa de “Sticky Fingers” (1971), dos Rolling Stones. A obra de arte feita por Warhol, com a foto de Billy Name, mostra um corpo masculino, da cintura para baixo vestindo calça jeans apertada, e na calça havia um zíper que você podia baixar e ver o encarte _uma foto de uma cueca branca, escondendo um pênis supostamente ereto. Muitas fãs assumiram que a foto era da calça de Mick Jagger, o que Warhol sempre negou. Além disso os varejistas reclamaram que o zíper estragava o vinil, que foi então ligeiramente movido mais para o centro do álbum.

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O disco traz hits como “Wild Horses” e “Brown Sugar”, mas é possível dizer com certeza que a comunhão da música dos Stones com a obra de Warhol foi o segredo para ele ter sido um sucesso de vendas.

O grafiteiro e neo expressionista Jean Michel Basquiat foi integrante da banda Gray junto a Michael Holman, mas o primeiro release em vinil do grupo saiu depois da sua morte, em 1988. Ele também assina o disco dos rappers Rammellzee vs. K-Rob ‎- Beat Bop (1983), é uma verdadeira raridade encontrar este vinil.

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Muitos dos grandes nomes da arte assinaram capas: Keith Haring, Roy Lichtenstein, Barbara Krueger, Julian Opie, Nobuyoshi Araki, Robert Mapplethorpe, Nick Knight, Herb Ritts, e outros.

Screenshot 2014-08-03 16.32.05 Barbara Krueger

Screenshot 2014-08-03 16.18.45Keith Haring Screenshot 2014-08-03 16.32.41Roy Lichenstein Screenshot 2014-08-03 16.34.38Araki Screenshot 2014-08-03 16.33.47MarplethorpheScreenshot 2014-08-03 17.46.40Julian OpieScreenshot 2014-08-03 17.58.58 Herb Ritts

Temos também Linder Sterling, que nasceu em Liverpool, mas passou boa parte da sua vida em Manchester.

Artista, performer e instrumentista, tem grande envolvimento na cena punk e pós punk da Grã Bretanha. Amiga próxima de Morrissey, foi integrante da banda Ludus e fez o fanzine The Secret Public, junto a Jon Savage ,uma de suas obras mais conhecidas é a Orgasm Addict, capa de disco do Buzz Cocks.

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Da mesma forma que temos artistas famosos que assinaram capas de disco, temos designers gráficos e ilustradores que precisaram antes galgar uma carreira, mostrando seu trabalho através das capas, até conquistar seu reconhecimento como artistas,

É o caso do ilustrador Patrick Nagel. Claro, contribuíram em sua carreira também outros meios _por exemplo, as revistas_, mas são as capas da banda Duran Duran as obras mais reconhecidas de seu portfólio.

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E obviamente não poderíamos deixar de falar dele: Peter Saville, o grande nome da Factory e do The Haçienda, que ao lado de Tony Wilson fez inesquecíveis capas do New Order, Joy Division, Happy Mondays, a Certain Ratio, OMD, entre outros.

Das muitas histórias sobre ele, uma das mais icônicas é a capa do single “Blue Monday”, do New Order, de 1983.

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Baseada no disquete de 5 ¼, que era na época o meio tecnológico usado para gravar música eletrônica, Peter o compreendeu e o ilustrou com o mesmo significado da tecnologia que aquela faixa trazia. Não há nada escrito nela: toda a informação do disco, incluindo o título, é comunicada pela barra de cores no canto direito da capa, que pode ser decifrada na roda de cores que aparece posteriormente no verso do álbum “Power, Corruption and Lies”, lançado no mesmo ano.

Screenshot 2014-08-03 18.08.34

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Devido aos cortes que haviam na capa original de “Blue Monday”, bem como a especificidade das cores, ela custou tão cara que o single foi vendido com perda de 10 centavos de libra por unidade.

Quando Tony Wilson, dono da Factory Records, da qual Saville também era co fundador, soube que a capa estava saindo tão cara, que disse: “Primeiro, é cara, mas é incrivelmente bela; segundo, nós não vamos vender nada”. Produziram o disco apenas em 12” e exatamente como Peter desenhou.

“Blue Monday” se tornaria o single de 12” mais vendido de todos os tempos.

Sobre os vinis , a boa nova é: apesar de ainda ocupar apenas 6% do mercado de música, a venda aumentou consideravelmente nos últimos dois anos. Cada vez mais, novos artistas lançam seu trabalho em vinil e discos antigos são relançados.

Ouvir um disco leva você a um ritual diferente de um shuffle de Ipod , o envolvimento com a música, com a ordem que o artista escolheu, com o projeto gráfico original _que muitas vezes é uma obra de arte.

“Steve Jobs foi um dos pioneiros da musica digital, mas quando ele ia para casa, ouvia discos de vinil” essa afirmação foi feita pelo cantor Neil Young.

O vinil conserva uma profundidade de som que é perdida nos formatos digitais.

Portanto, se você não tem uma vitrola e não coleciona vinis, você efetivamente deveria reconsiderar!

Por Julia Morelli

– matéria publicada no Manipresto #03



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